Por alguns anos, este blog ficou em silêncio.
Não por abandono do tema, nem por mudança de convicção, mas por circunstâncias pessoais bem concretas.
Nesse período, mudei do Rio de Janeiro para São Paulo, enfrentei os desafios naturais de recomeço e dediquei grande parte do meu tempo à preparação para concursos públicos — uma empreitada que exige foco, disciplina e, inevitavelmente, o sacrifício de outros projetos.
Somou-se a isso o fato de que, quando comecei a escrever aqui, o preterismo completo era um tema ainda pouco conhecido no meio cristão brasileiro, cercado de resistência, incompreensão e dificuldades reais de diálogo. Em muitos momentos, falar sobre isso significava mais explicar caricaturas do que discutir o texto bíblico em si.
Este texto cumpre dois propósitos:
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reapresentar o que é o preterismo;
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marcar meu retorno ao blog, agora com outra perspectiva de tempo e prioridade.
O que é Preterismo?
O preterismo não é uma religião, uma seita ou um novo movimento cristão. Trata-se de uma escola de interpretação escatológica, isto é, uma forma de compreender as profecias bíblicas relacionadas aos “últimos dias”, à vinda de Cristo, ao juízo e ao fim da era judaica.
A palavra preterismo vem do latim praeteritus, que significa passado. Em termos simples, o preterismo afirma que muitas — ou todas — as profecias escatológicas do Novo Testamento já se cumpriram no passado, especialmente no contexto do primeiro século.
Preterismo parcial e preterismo completo
Dentro dessa abordagem, existem duas posições principais:
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Preterismo parcialDefende que várias profecias se cumpriram no primeiro século (como a destruição de Jerusalém em 70 d.C.), mas ainda aguarda uma segunda vinda futura de Cristo, uma ressurreição corporal geral e um juízo final literal.
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Preterismo completo (ou total)Sustenta que todas as profecias escatológicas do Novo Testamento — inclusive a vinda de Cristo, a ressurreição e o juízo — foram cumpridas no primeiro século, no contexto do fim da antiga aliança e do sistema judaico centrado no templo.
Este blog assume explicitamente a perspectiva do preterismo completo.
A importância do tempo nas profecias bíblicas
Um dos pilares do preterismo é levar a sério as declarações de tempo presentes no próprio texto bíblico.
Expressões como:
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“em breve”
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“às portas”
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“não tardará”
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“o tempo está próximo”
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“esta geração não passará”
aparecem repetidamente nos ensinos de Jesus e dos apóstolos.
Em Mateus 24:34, por exemplo, Jesus afirma:
“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isso aconteça.”
O preterismo entende que essas palavras foram dirigidas a pessoas reais, em um contexto histórico específico, e que seus ouvintes originais tinham condições de compreendê-las sem projetá-las para milênios no futuro.
Contexto histórico: o fim da era judaica
O cumprimento dessas profecias está ligado a um evento histórico central: a destruição de Jerusalém e do templo, no ano 70 d.C.
Esse acontecimento marcou:
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o fim do sistema sacrificial levítico
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o encerramento definitivo da antiga aliança
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o juízo sobre a Jerusalém que rejeitou o Messias
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a plena manifestação do Reino de Deus, agora desvinculado do templo físico
Para o preterismo completo, esse evento representa o clímax escatológico anunciado por Jesus e pelos apóstolos.
Linguagem profética e interpretação
Os textos proféticos não foram escritos em linguagem jornalística moderna. Eles utilizam:
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metáforas
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imagens cósmicas
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símbolos poéticos
Expressões como “o sol escurecer”, “as estrelas caírem” ou “os céus se enrolarem” são usadas no Antigo Testamento para descrever juízos históricos e mudanças de alianças, não fenômenos astronômicos literais.
Interpretar profecia exige atenção ao modo como a própria Bíblia fala, e não a imposição de critérios externos ao texto.
No preterismo completo, a ressurreição é entendida de forma corporativa e espiritual, ligada à passagem da morte da antiga aliança para a vida plena da nova aliança.
O juízo final é compreendido como:
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histórico
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covenantal (relativo à aliança)
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direcionado principalmente à geração do primeiro século
Isso não elimina responsabilidade moral, mas redefine tempo, escopo e natureza desses eventos à luz do texto bíblico.
Este blog não retorna com a pretensão de encerrar debates, mas de contribuir para uma leitura mais honesta e contextual das Escrituras.
Depois de um tempo de silêncio imposto pelas circunstâncias, volto a escrever com mais consciência de limites — e também com mais clareza sobre o que realmente importa.
Nota editorial
Texto originalmente escrito em 2013 e revisado para atualização de linguagem, estrutura e contexto pessoal, mantendo sua convicção teológica central.

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